
Os Sem-manga.
Verão, época de safra de mangas e agora também época de muiiiiiito aperreio. Costumo recolher as mangas caídas no meu quintal logo cedo, antes de minha caminhada diária. Separo algumas para consumo, outras pra distribuir entre vizinhos, parentes e amigos e outras deixo em cima do muro para quem quiser apanhar ou alguém que venha pedir. Ou melhor, costumava, pois agora se quiser ter mangas tenho de, literalmente, disputar quase à tapa as manga plantadas no meu quintal
Há uns três anos que não consigo manter essa tradição, porque ultimamente apareceu no meu bairro um novo método de colher frutas, principalmente mangas, que tem me deixado bastante aborrecida e cética com relação ao direito de propriedade privada. Logo ao amanhecer e durante todo o dia homens, rapazes e crianças andam sorrateiramente pelas ruas vasculhando quintais com mangueiras munidos de imensas varas de bambu com uma cesta para recolher o fruto em uma das extremidades improvisada de garrafa pet cortada ao meio e, cinicamente, impõem essa ferramenta (ou seria arma?!) dentro de nossas casas por cima do muro sem pedir permissão ou simplesmente avisar que estão “colhendo” o que nós plantamos. Alguns mais afoitos pulam o muro ou até abrem, sem pedir licença, o portão para recolher as que caem no chão, mesmo correndo o risco de ser mordido pelo cão da casa. Os mais jovens gostam de jogar pedras pra derrubar a fruta não se importando se elas atingem carros, janelas, animais de estimação ou cabeças. Ano passado minha vizinha de quase 90 anos levou alguns pontos na testa por ter tido a infelicidade de estar no quintal numa dessas investidas de catadores de mangas. Acho isso um absurdo, porque sem nenhum critério eles arrancam todas as mangas que a vara alcança, estejam elas madura ou não, colocam em seus carros-de-mão e vão embora deixando folhas caídas no quintal e na calçada. Às vezes dão uma mordida numa mais apetitosa e jogam o resto fora pouco se lixando se logo após possa vir alguém e levar um baita escorrego nas cascas espalhadas pela calçada. E toda essa sujeira quem limpa?! Claro que o otário dono da casa. Afinal ele plantou, cultivou e tem a obrigação de limpar a sujeira. Só não tem direito de consumir o que plantou e de reclamar e/ou impedir a ”colheita”, pois será xingado até a 15ª geração por estar sendo piranangueiro negando fruta ou então ouvir ameaças caso queira dar uma de doido (coisa que geralmente eu faço) e peitar os sem-mangas da vida para fazer valer seus direitos de usufruir livremente de suas fruteiras. Seria isso egoísmo de minha parte? Monopólio?! Claro que não, pois partilho com vizinhos e distribuo com estranhos cada manga das três mangueiras existentes no meu quintal. Acredito que a palavra certa seria invasão. De direito, de privacidade, de propriedade, o escambau. Ou mesmo roubo, porque se estão tirando o que é meu de dentro da minha casa sem a minha permissão, mesmo que seja fruta, isso para mim é roubo. O que não tem na casa deles pegam na do vizinho ou dos estranhos? É assim que funciona? Hoje frutas, amanhã será o que?! De acordo com o dito popular “cesteiro que faz um cesto faz uma cento, assim haja cipó e tempo”.
Essa situação me revolta e entristece, porque escancara diante de nós um ser humano totalmente brutalizado onde educação e respeito não fazem parte de suas ações. O que importa é se dar bem, levar vantagem em tudo. Onde esse tipo de atitude vai levar? Será que vale a pena calar e deixar a coisa rolar? Ou será melhor mudar de time e fazer parte do bloco da Lei de Gerson?
Mesmo insatisfeita, decepcionda, ultrajada eu ainda acredito que esta não é a saída. Principalmete depois que prestei atenção especial na letra da música Cores da Euaristia. Percebi que o caminho é justamente o inverso. Enquanto existir indignação com situações e atitudes como estas o ideal é sempre ir no sentido contrário, não se acomodar, gritar, lutar por nossos direitos e de nossos irmão para que possamos ter a vida digna para a qual fomos criados. Mais uma vez Pe Fábio de Melo com suas palavras e poesia evangelizadoras mostrou que o ser humano pode ser aprimorado desde que haja esforço para tentar consertar o que está tronxo. Não é fácil, mas também não é impossível e vale a pena tentar.
Créditos: Paper: Sentiments by Thaliris